Você tem toda razão.
Eu não me entrego pra qualquer um, só para aqueles que me desconcentram. Eu, que me concentro em meio à uma multidão de crianças, não consigo lembrar o que estava fazendo, não consigo acertar na medida do café, não consigo deixar de tremer, impedir que as minhas mãos fiquem suadas, que os olhos pisquem inquietos, que os pés parem de se mexer.
Só àqueles que derrubam minha admirável segurança, vestindo-me com os olhos a auto-estima de uma adolescente.
…
Quando inocentemente perdi meu coração.
E foi assim.
Quando eu pensava em te ligar, meu telefone tocava.
Quando eu pensava em sair, recebia seu convite.
Quando eu sonhava com chocolate, acordava com um no travesseiro.
De brinde, sempre os bilhetes.
Quando eu pensava em conversar, você já tinha mandado os pedidos de desculpas.
Eu achava que você nunca ia aceitar, mas sempre parecia tudo simples, bobo. E lá estava você, pronto, me esperando.
Depois de um tempo o telefone deixou de tocar.
Achei que era passageiro.
A sintonia foi sumindo.
Achei que era algum desvio astrológico.
Passei a dormir pensando nos chocolates.
Mas eles nunca mais se materializaram.
“Acabaram os papéis de bilhete”, você dizia.
Demorei a entender a frase.
Só entendi depois de ter digerido todo o meu coração.
No fundo do buraco que ficou em mim senti o amargo, a frieza e a crueldade inocente.
Mas já era tarde.
Eu era outra.
*
Primeiro veio a ajuda, depois as fotos.
Por fim, a amizade.
Cresceu e virou filme.
Animamos os momentos e aí eles pularam pro mundo real.
Eu, Mário e Fred, saímos juntos das telas e transformamos as cenas em fatos da nossa vida pública-privada.
Num dia lindo, o Fred colocou a gente num poema.
Somos eternos onde importa: em mim, em Mário e em Fred.
*